O filme seco muda o número
A RNFL que caiu no follow-up pode ser o filme, não o nervo.
Edição Fundadora • Nº 00
Uma edição dedicada às transformações que estão redefinindo o entendimento da doença do olho seco, da fenotipagem clínica ao diagnóstico multimodal, novas tecnologias e estratégias terapêuticas personalizadas.
Editorial
As 13 matérias da Edição Fundadora já estão no ar — cada uma publicada assim que ficou pronta, com referências e disclosures. O editorial de abertura sai com o fechamento da edição impressa, em novembro de 2026.
A proposta editorial parte de uma pergunta central: como transformar a ampliação do diagnóstico e das opções terapêuticas em decisões mais precisas, transparentes e aplicáveis à prática clínica?
Esta seção descreve a proposta da edição. Não é o editorial definitivo, que ainda não foi escrito.
Eixos da edição
Os artigos no ar percorrem estes eixos. A edição impressa fecha em novembro de 2026.
Artigos da edição
A RNFL que caiu no follow-up pode ser o filme, não o nervo.
O olho seco continua sendo um diagnóstico montado por pedaços. Sintoma, sinal e biomarcador discordam. A IA entrou para automatizar a leitura de uma imagem ou juntar imagem e ficha. O apelo é objetividade e velocidade.
A higiene palpebral virou default para qualquer margem suja. Em infestação documentada, o default não erradica o ácaro. Tratar só com conforto é o mecanismo errado. Tratar toda blefarite como Demodex também é.
O consultório ainda escala por gravidade: lágrima, anti-inflamatório, plug, aparelho. “Quando sintomas e sinais não batem” já disse que o driver da visita importa mais que o escore. Não há ensaio que teste tratamento dirigido por mecanismo contra escalada por gravidade.
A fila da catarata e da refrativa ainda opera no filme instável. “Dói o olho?” não identifica quem vai errar a ceratometria. Duas semanas de lágrima não têm âncora de acurácia de LIO nesta lista.
O center que só recebe quem já tem o rótulo perde a maior parte da demanda. Inomata e colaboradores (2020): 72,7% dos sintomáticos num aplicativo japonês estavam sem diagnóstico. Yeo e colaboradores (2014): 47,5% somem de uma clínica dedicada em dois anos.
Na prática, é tentador reduzir a DGM a uma sequência simples: meibum espesso, obstrução, instabilidade lacrimal e sintomas. Esse modelo é útil, mas incompleto.
Durante anos, a doença do olho seco foi ensinada como uma escada. O caso "leve" começava com educação e lubrificante. O "moderado" recebia anti-inflamatório ou tratamento palpebral. O "grave" avançava para lágrimas biológicas, lentes terapêuticas ou cirurgia.
Quando o questionário é alto e a coloração, o tempo de ruptura ou a osmolaridade são baixos (ou o inverso), a tentação do consultório é repetir o exame, trocar o instrumento ou escalar o tratamento como se a discordância fosse erro de medida.
Uma nova tecnologia chega com um gráfico: primeiro lugar em TBUT, melhor P-score em coloração. P-score não é ranking de compra. Três meses não são doze.
O meiboscore virou atalho de consultório. A pálpebra é evertida, o software devolve um número, o laudo sai “DGM grau 2”. A pergunta útil é outra: como adquirir, ler e não superinterpretar a imagem.
O consultório ainda trata tempo de ruptura, osmolaridade, coloração, interferometria e MMP-9 como se fossem proxies intercambiáveis de gravidade. Cada um responde a uma pergunta. A discordância entre eles é dado, não falha do exame.
O consultório ainda escala o paciente que não responde à lágrima como se o filme fosse o único endereço. Irritação, epífora, tempo de ruptura curto na córnea inferior: o reflexo é trocar o lubrificante, acrescentar anti-inflamatório, chamar de “olho seco refratário”.
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