Análise editorial
Por que importa
Durante anos, a doença do olho seco foi ensinada como uma escada. O caso "leve" começava com educação e lubrificante. O "moderado" recebia anti-inflamatório ou tratamento palpebral. O "grave" avançava para lágrimas biológicas, lentes terapêuticas ou cirurgia. A estrutura era didática. Também era perigosa: podia fazer o clínico tratar a intensidade da manifestação antes de identificar o que a produz.
O TFOS DEWS III (terceiro workshop da Tear Film & Ocular Surface Society, publicado em 2025 no American Journal of Ophthalmology) desloca o centro dessa lógica. Sistemas que agrupam pacientes apenas como leve, moderado ou grave, ou somente como aquodeficiente versus evaporativo, escondem a coexistência e a variação temporal dos mecanismos. A pergunta operacional deixa de ser só "quão grave é?". Passa a ser: quais fatores etiológicos são clinicamente relevantes neste olho, hoje?
A mudança não é "gravidade versus mecanismo". É um sistema de duas coordenadas. O eixo horizontal (o mecanismo) indica o que tratar. O eixo vertical (gravidade e risco) indica quanto, quão rápido e com quanta proteção tratar. Uma paciente com sintomas moderados e lagoftalmo não deve esperar fracassar em vários lubrificantes para que a exposição seja tratada. Outra, com dor intensa e poucos sinais, não deve receber indefinidamente mais colírios sem investigação neurossensorial. No Brasil, o acesso a osmolarímetro, meibógrafo, IPL ou hemoderivados varia entre o consultório de médio porte, o centro de superfície e o SUS. O DEWS III, lido com rigor, não exige plataforma tecnológica. Exige hipótese explícita.
Análise editorial
Método e recorte
Este artigo é uma revisão narrativa e uma interpretação prática dos relatórios oficiais do TFOS DEWS III (2025), do resumo executivo (2026) e de estudos complementares citados. Não constitui diretriz nacional nem prescrição individual. Referências conferidas no Crossref em 15 de agosto de 2026. O Digest tem corrigendum em 2026. Data de corte da busca: 14 de agosto de 2026. Disponibilidade e registro sanitário de fármacos e dispositivos devem ser conferidos em fontes regulatórias brasileiras atualizadas.
Evidência
Evidência
O consenso define o olho seco como doença multifatorial e sintomática, marcada pela perda de homeostase do filme lacrimal e/ou da superfície ocular, na qual instabilidade e hiperosmolaridade, inflamação e dano, e anormalidades neurossensoriais atuam como fatores etiológicos.
Três escolhas têm consequência clínica imediata. Primeiro, o olho seco é doença, não síndrome. Uma síndrome é um agrupamento de queixas. Uma doença tem fisiopatologia, drivers identificáveis e razão para terapia dirigida. O rótulo "síndrome do olho seco" ainda circula em prontuários e laudos. Vale abandoná-lo.
Segundo, a superfície ocular passa a dividir explicitamente com o filme lacrimal o núcleo da homeostase. Isso acomoda melhor situações em que fricção, dano epitelial, anatomia, inflamação primária ou disfunção neural sustentam sintomas, mesmo quando a produção aquosa não é a história principal.
Terceiro, a doença é, por definição, sintomática. Sinais isolados (disfunção de glândula meibomiana, blefarite, coloração puntiforme) exigem acompanhamento e busca de doença associada, mas não preenchem, sozinhos, a definição. Sintomas sem evidência objetiva de perda de homeostase obrigam a ampliar o diagnóstico diferencial. A discordância entre queixa e sinal, e o mapeamento dos eixos quando eles não batem, está na matéria Quando sintomas e sinais não batem.
O algoritmo separa duas tarefas que frequentemente se confundem na mesma consulta: confirmar a doença e, depois, explicá-la.
Para confirmar, o rastreamento recomendado é o OSDI-6, com ponto de corte ≥ 4 na soma bruta dos 6 itens (escala 0–24), não no índice 0–100 do OSDI-12, seguido da demonstração de ao menos um marcador de perda de homeostase. Estabilidade: NIBUT < 10 s. Se o método não invasivo não estiver disponível, TBUT com volume mínimo de fluoresceína e corte < 5 s. Osmolaridade: ≥ 308 mOsm/L em qualquer olho ou diferença interocular > 8 mOsm/L (cortes estabelecidos com o sistema TearLab, não automaticamente transferíveis a qualquer equipamento). Coloração: > 5 pontos corneanos com fluoresceína; > 9 pontos conjuntivais com lisamina verde; e/ou margem palpebral com ≥ 2 mm de extensão e ≥ 25% de largura.
O instrumento não deve ser reproduzido ou incorporado a prontuário, site ou aplicativo sem verificar as condições de uso e licenciamento aplicáveis. A versão completa do OSDI já foi traduzida e validada para o português. Isso não autoriza tratar o OSDI-6 como equivalente automático. Até que haja validação brasileira específica da versão curta, o escore integra (e não substitui) a entrevista clínica.
Um único marcador positivo confirma a doença em paciente sintomático. Para não perder o diagnóstico, é desejável avaliar mais de um grupo de sinais. Em 1.427 participantes, o uso de um único marcador teria deixado sem diagnóstico entre 12,3% e 36,2% dos casos que preencheriam o protocolo completo. Limitar-se à fluoresceína só corneana reduz a sensibilidade a 44,6%. A avaliação ampla (córnea, conjuntiva e margem palpebral) é especialmente informativa.
Depois de confirmar, o exame localiza os fatores etiológicos. O DEWS III organiza nove componentes em três territórios. Filme: lipídico, aquoso, mucina/glicocálix. Pálpebras: piscar/fechamento, margem. Superfície: desalinhamento anatômico, disfunção neural, dano/ruptura celular, inflamação primária/estresse oxidativo. "Evaporativo" e "aquodeficiente" continuam úteis como descrição ampla, mas perdem poder se forem o ponto final. Dois pacientes evaporativos podem exigir condutas radicalmente diferentes: um apresenta meibo obstruído e telangiectasia; outro, piscar incompleto por trabalho prolongado em tela.
Os drivers não são mutuamente exclusivos. Em doença multifatorial, tratamento combinado pode ser a estratégia inicial mais coerente, desde que cada item tenha alvo, segurança e desfecho definidos.
No Brasil, essa atenção ao contexto não é detalhe epidemiológico. Levantamentos identificaram associação com sexo feminino, idade, uso de telas, cirurgia ocular e medicamentos. Um inquérito domiciliar encontrou sintomas mais frequentes em área urbana que rural. O TFOS Lifestyle Report (2023) tornou formal o que o consultório brasileiro vê todos os dias: telas, ambiente, cosméticos e iatrogenia como drivers, não como apêndice.
O que não mudou: o diagnóstico continua clínico. O exame precisa excluir mascaradores. A evidência varia entre intervenções. "Dirigido por mecanismo" frequentemente significa dirigido por um mecanismo provável, inferido de história, sinais e resposta longitudinal. Biomarcadores que predizem resposta individual ainda são limitados.
Evidência
O mapa dos nove drivers
O mapa dos nove drivers. Três territórios etiológicos — TFOS DEWS III.
Aplicação
Prática
O DEWS III não exige que toda consulta se transforme em um laboratório de superfície ocular. Osmolaridade, interferometria, meibografia, MMP-9, estesiometria e microscopia confocal podem aumentar a precisão em casos selecionados. O algoritmo, porém, pode ser iniciado com recursos presentes em grande parte dos consultórios oftalmológicos brasileiros.
Antes de confirmar, exclua o que muda a prioridade. Dor verdadeira, assimetria importante, secreção, edema, trauma, início abrupto, inflamação intraocular, defeito epitelial, infecção, queda visual não explicada ou suspeita sistêmica não são "olho seco grave". São outro problema, ou um problema que convive com o olho seco e o ultrapassa. Revise alergia, medicamentos, cosméticos, cirurgia, lente de contato e doenças da superfície que podem mascarar ou coexistir.
Além de secura, ardor e flutuação visual, pergunte quando o sintoma aparece, o que o interrompe e qual exposição o antecede. Tela, ar-condicionado, vento, cosméticos, lente de contato, colírios crônicos, cirurgia recente, alergia, rosácea, dor sistêmica, sono e medicamentos deixam de ser uma lista protocolar e passam a gerar hipóteses testáveis.
Antes de instilar fluoresceína, observe piscar, fechamento, posição palpebral, menisco, debris, espuma e padrão de ruptura não invasivo, quando disponível. Muitos topógrafos e tomógrafos já instalados no país medem NIBUT. O gargalo costuma ser usá-los de forma padronizada, não comprá-los. Examine margem, orifícios, vascularização e expressão do meibo. Depois, use os corantes para mapear córnea, conjuntiva e margem palpebral. Lisamina verde é barata e subutilizada. Altura do menisco e Schirmer ganham valor quando há suspeita aquodeficiente. Sensibilidade corneana e pistas de dor neuropática tornam-se prioritárias quando sintomas e sinais divergem.
Tecnologia entra como modificadora de probabilidade. Meibografia documenta perda glandular, mas não substitui a expressão, não mede sozinha a função atual e não diagnostica doença do olho seco isoladamente. Osmolaridade pode confirmar perda de homeostase, mas não localiza o mecanismo. MMP-9 sugere atividade inflamatória dentro das limitações do teste, mas não autoriza concluir que toda queixa decorre de inflamação. O investimento em equipamento deve responder a uma pergunta clínica concreta e alterar uma decisão.
No filme lacrimal, a pergunta é se há DGM funcional que sustente instabilidade, produção aquosa insuficiente, perda ou retenção inadequada, ou superfície que perdeu a capacidade de manter o filme uniformemente distribuído. Procure meibo, expressibilidade, orifícios, padrão lipídico, menisco, Schirmer quando indicado, padrão de ruptura, coloração conjuntival e sinais de toxicidade.
Nas pálpebras: a distribuição e a proteção falham por dinâmica palpebral? A margem gera inflamação, obstrução, fricção ou contaminação? Observe frequência e completude do piscar, vedação, lagoftalmo, exposição noturna, cílios, debris, Demodex, telangiectasias e queratinização.
Na superfície ocular: anatomia ou fricção perpetua a perda de homeostase? Há comprometimento trófico ou sensibilização além do filme? A prioridade imediata é proteger e regenerar tecido? A inflamação é driver primário clinicamente sustentado? Procure conjuntivocálase, pterígio, irregularidade, malposição palpebral, sensibilidade, alodinia, fotofobia, filamentos, hiperemia e pistas de doença sistêmica.
A pergunta prática, para cada item da receita, é uma frase incompleta: estou indicando isto para modificar aquilo e vou reavaliar por meio de um desfecho definido. Se médico e paciente não conseguem preenchê-la, o item provavelmente não pertence ao plano.
Na escada, os três casos abaixo poderiam receber o mesmo rótulo e o mesmo lubrificante. No mapa mecanístico, a intensidade pode ser parecida. O alvo inicial não.
Caso 1 (tela, instabilidade e piscar): arquiteta, 38 anos, ardor e visão flutuante ao fim do expediente. Piscar incompleto, NIBUT reduzido, meibo expressível, pouca coloração. O driver dominante é piscar/exposição. Deficiência lipídica não está demonstrada como alvo principal. A primeira decisão é reorganizar piscar, pausas e ambiente, e escolher suplemento compatível com a instabilidade. Procedimento palpebral agressivo não decorre apenas de NIBUT baixo.
Caso 2 (aquodeficiência e risco epitelial): mulher, 62 anos, boca seca, menisco muito baixo, coloração corneoconjuntival e piora após cirurgia de catarata. O mapa combina deficiência aquosa e dano celular. A suspeita sistêmica aumenta risco e urgência. Reposição compatível, redução de toxicidade, proteção da superfície e investigação de Sjögren podem caminhar em paralelo. Não é racional esperar falhas sequenciais de lubrificante.
Caso 3 (dor 9/10, poucos sinais): homem, 46 anos, fotofobia e alodinia ao vento, sem marcador objetivo de perda de homeostase. Usa cinco colírios. A doença do olho seco ainda não está confirmada. Toxicidade e disfunção neural entram no diferencial. O passo seguinte não é o sexto colírio. É revisar superfície, sensibilidade, cirurgia prévia, enxaqueca e dor crônica, e estruturar avaliação neurossensorial. Olho seco discreto e dor neuropática podem coexistir, mas exigem planos paralelos.
Traduzir o DEWS III não é importar uma lista de moléculas aprovadas no exterior. É montar, para cada mecanismo, uma cesta de opções disponíveis, sustentáveis do ponto de vista regulatório e executáveis por aquele paciente. A lista do consenso não é formulário nacional. Moléculas e dispositivos devem ser conferidos, no dia da decisão, nas bases da Anvisa. Uma denominação comum não prova que exista produto registrado. Para IPL, luz de baixa intensidade e sistemas térmicos, a regularização é específica do produto, do modelo e das instruções de uso. Um aparelho dermatológico não deve ser presumido como indicado para aplicação periocular. Lágrimas de soro autólogo exigem serviço licenciado, rastreabilidade e controle de qualidade, nos termos da Nota Técnica nº 03/2018 da Anvisa.
Até a data de corte desta matéria, não havia protocolo clínico e diretriz terapêutica nacional específico para doença do olho seco na lista da Conitec. Procedimentos básicos como Schirmer e oclusão de ponto lacrimal têm mais clareza de nomenclatura do que NIBUT, osmolaridade, meibografia, MMP-9 e terapias instrumentais. Ausência de denominação específica não significa negativa automática, mas ajuda a explicar a heterogeneidade e o desembolso direto. O protocolo precisa funcionar em camadas.
Abandonar a escada rígida não equivale a tratar todos com a mesma intensidade. O próprio consenso não oferece um escore ponderado de gravidade validado: a associação fraca entre sinais e sintomas inviabilizou esse atalho. Gravidade permanece julgamento clínico, indispensável para urgência, proteção, carga terapêutica e intervalo de seguimento. A melhor imagem não é demolir a escada, mas girá-la. Ela deixa de ser a rota universal de escolha e se torna o eixo vertical de intensidade dentro de um mapa horizontal de mecanismos.
Amanhã, no consultório (seis minutos):
0–1 min. Sintomas e impacto: aplique instrumento autorizado e registre frequência, gatilhos, flutuação visual, dor e limitação funcional.
1–2 min. Mascaradores: alergia predominante, infecção, toxicidade, erosão recorrente, alteração palpebral aguda, neuralgia e sinais de doença sistêmica ou urgência.
2–3 min. Filme sem corante: piscar, fechamento, menisco, debris e estabilidade. NIBUT se disponível.
3–4 min. Pálpebras e meibo: margem, Demodex, orifícios, vascularização, posição palpebral e qualidade/expressibilidade da secreção.
4–5 min. Superfície com corantes: mapeie córnea, conjuntiva e margem. Evite reduzir o exame à fluoresceína central.
5–6 min. Plano testável: nomeie os drivers dominantes, pareie cada conduta a um alvo e defina o que deverá ter mudado no retorno.
Separe diagnóstico de subclassificação. Primeiro confirme sintomas mais perda de homeostase. Depois localize os drivers. Não pare em evaporativo versus aquodeficiente. Dê um alvo a cada item da receita. Use gravidade para intensidade e proteção, não como portão que adia a correção de uma causa evidente. Refenotipe no retorno.
Limitações
Limitações
Consenso não é ensaio clínico. Um algoritmo abrangente não iguala a força da evidência entre intervenções. Há heterogeneidade em definições, dispositivos, parâmetros, comparadores e desfechos. Muitas terapias melhoram um sinal sem efeito proporcional nos sintomas. Outras têm estudos curtos, amostras pequenas ou forte dependência de tecnologia proprietária.
O relatório de manejo declara apoio por doações irrestritas de múltiplas empresas e apresenta conflitos individuais dos autores. Transparência exige considerar esse contexto junto com método, consistência e qualidade dos estudos. Não é rejeição automática.
"Tratamento dirigido por mecanismo" ainda é, muitas vezes, fenótipo dirigido por mecanismo provável. A honestidade clínica consiste em explicitar a hipótese, escolher uma intervenção coerente e usar a resposta longitudinal como parte da inferência.
Não há escore ponderado de gravidade validado pelo consenso. Gravidade permanece julgamento clínico. A lista internacional de classes e dispositivos não é formulário brasileiro. Biomarcadores que predizem resposta individual ainda são limitados.
Este texto é uma interpretação editorial dos relatórios TFOS DEWS III, não uma reprodução integral do consenso e não uma diretriz brasileira. Não substitui leitura das fontes, bula, registro sanitário, julgamento clínico nem decisão compartilhada. Data de corte: 14 de agosto de 2026.
Fontes
Referências
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Transparência
Conflitos de interesse / disclosures
- Financiamento
- Sem financiamento externo.
- Conflitos de interesse
- O autor declara não possuir vínculo com fabricantes de dispositivos, fármacos ou tecnologias citados neste artigo.
- Uso de inteligência artificial
- Houve assistência de IA na reorganização editorial, na revisão linguística e na conferência bibliográfica das referências contra Crossref e PubMed. A IA não foi tratada como fonte; as afirmações e referências foram verificadas pelo autor.
- Revisão
- Este artigo não passou por revisão independente por pares. Ver o selo editorial no topo da página.
- Aprovação ética
- Não se aplica: revisão narrativa sem dados individuais ou imagens identificáveis.