Análise editorial

01

Por que importa

Quando o questionário é alto e a coloração, o tempo de ruptura ou a osmolaridade são baixos (ou o inverso), a tentação do consultório é repetir o exame, trocar o instrumento ou escalar o tratamento como se a discordância fosse erro de medida. O paciente descreve queimação, fotofobia ou dor ao vento. A córnea está quase limpa, o menisco é aceitável, o tempo de ruptura não é catastrófico. Ou o inverso: a superfície está marcada, o volume é baixo, e o paciente quase não se queixa. Essa reação pressupõe que sintomas e sinais deveriam convergir. Não deveriam. A discordância é um achado clínico, não um exame inconsistente.

A pergunta útil é outra. Como mapear o paciente aos eixos aquoso, evaporativo-DGM, inflamatório, neurossensorial e mecânico quando sintomas, sinais e mecanismos não batem, sem forçar concordância e sem transformar o contínuo em checklist?

O consultório brasileiro, na maior parte dos dias, ainda escala por gravidade de sintoma ou por um binário aquoso versus evaporativo. Nenhum dos dois explica o paciente que dói desproporcionalmente, o Sjögren oligosintomático com superfície destruída, ou o misto em que filme, margem e dor convivem e a polifarmácia cresce. Fenótipos mistos são a regra, não a exceção. A mudança de pergunta é esta: em vez de "qual a gravidade?", "qual eixo está dirigindo esta consulta?"

Análise editorial

02

Método e recorte

Este artigo é uma revisão narrativa. Não constitui diretriz nacional nem prescrição individual. As referências foram conferidas no Crossref em 15 de agosto de 2026 (quatorze de quatorze DOIs resolvidos). Data de corte da busca: 15 de agosto de 2026.

Evidência

03

Evidência

O framework de fenótipo está no relatório de definição do DEWS II. Craig e colaboradores (2017) descrevem a doença do olho seco como perda de homeostase do filme lacrimal, com sintomas de desconforto ou distúrbio visual, e com etiologias-chave em instabilidade, hiperosmolaridade, inflamação e dano. O componente neurossensorial entra pela primeira vez. Aquoso e evaporativo existem em contínuo, não como polos que se excluem. O esquema já admitia as duas discordâncias: sinais sem sintomas (inclusive o olho neurótrofico) e sintomas sem sinais demonstráveis (inclusive a dor neuropática).

O mapa que o leitor conhece é o do relatório de metodologia do DEWS II (Wolffsohn e colaboradores, 2017): triagem com DEQ-5 ou OSDI; em seguida tempo de ruptura (de preferência não invasivo), osmolaridade e coloração de córnea, conjuntiva e margem; depois, subclassificação evaporativo versus aquoso. Esse mapa ainda organiza a maior parte das fichas. Não é o mapa operacional desta matéria. É o contraste: o que se pedia em 2017 e o que se pede agora.

O mapa operacional é o relatório de metodologia diagnóstica do DEWS III (Wolffsohn e colaboradores, 2025). A doença é multifatorial e sintomática. Os fatores etiológicos incluem instabilidade, hiperosmolaridade, inflamação e dano, e anormalidades neurossensoriais como fator formal, não como comorbidade opcional. O screening recomendado é OSDI-6 ≥ 4 na soma bruta dos 6 itens (escala 0–24), não no índice 0–100 do OSDI-12. O diagnóstico fecha com screening positivo mais um signo de homeostase: NIBUT menor que 10 segundos, ou hiperosmolaridade (≥ 308 mOsm/L ou diferença interocular maior que 8), ou coloração (córnea > 5, ou conjuntiva > 9, ou margem palpebral ≥ 2 mm e ≥ 25% da largura). Isso é a porta diagnóstica. Não é o recap dos nove drivers (esse mapa está na matéria TFOS DEWS III na prática).

Duas categorias do consultório mudam de endereço. "Olho seco silencioso" (sinais sem sintomas) deixa de ser doença do olho seco no sentido DEWS III. Pode ser superfície alterada, neurotrofia ou outro diagnóstico. Não fecha o critério de doença sintomática. "Olho seco sem teste" (sintomas sem signo de homeostase) também não fecha. O que se investiga é o ramo neurossensorial, a dor neuropática ocular, o driver neural. A discordância não desaparece. Ela ganha endereço.

A subclassificação em filme, pálpebra e superfície é o esqueleto. No consultório, isso se traduz nos eixos aquoso, evaporativo-DGM, inflamatório e neurossensorial, com o desalinhamento como caixa mecânica. O Digest do DEWS III (Stapleton e colaboradores, 2025) ancora o que esta matéria precisa do consenso de 2025 sem reabrir a biologia da glândula de Meibomius: o eixo dor e sensação, e a distinção fisiopatológica entre deficiência aquosa e evaporativa, inclusive o papel do estresse neural.

A discordância como fato clínico tem um landmark. Nichols e colaboradores (2004) examinaram 75 pacientes com doença do olho seco e não encontraram associação entre sinais e sintomas após ajuste para idade e lágrima artificial. A amostra é pequena. O protocolo é anterior à osmolaridade e ao NIBUT de rotina. O OSDI ainda não era o instrumento padronizado daquele desenho. Nada disso apaga o achado: a correlação que o consultório espera não estava lá.

Vehof e colaboradores (2017) dão o que o landmark não dava: preditores acionáveis, nas duas direções, em 648 pacientes de um serviço terciário holandês (83% mulheres, mais próximo do consultório brasileiro do que as cohorts de veteranos). Mais sintomas que sinais: dor crônica, atopia, anti-histamínicos, depressão, osteoartrite, antidepressivos. Essa direção associou-se a pior saúde percebida. Menos sintomas que sinais: idade, Sjögren (sobretudo a forma primária), doença do enxerto contra o hospedeiro. Associação transversal não é causalidade. Continua sendo a lista que muda a anamnese quando a discordância aparece.

As cohorts de veteranos americanos descrevem a outra face (a discordância como fenótipo de sensibilização) e exigem caveat de população. Ong e colaboradores (2018) estudaram 326 pacientes de um hospital VA, 92% homens. O escore de discordância associou-se a dor não ocular, transtorno de estresse pós-traumático, índices de saúde mental e hiperalgesia em testes quantitativos sensoriais, com pós-sensações ao calor e ao frio. Galor e colaboradores (2015), na mesma linha de serviço, mostraram que sintomas medidos por DEQ-5 e OSDI correlacionavam-se moderadamente com dor não ocular, depressão e PTSD, e fraca ou não se correlacionavam com parâmetros do filme lacrimal. Na regressão, nenhum parâmetro lacrimal permaneceu associado. A implicação é direta e limitada: tratar só o filme em um paciente com discordância alta e carga de dor não ocular pode ser o mecanismo errado. Para o consultório brasileiro (maioria mulher, terciário misto), a direção da discordância apoia-se em Vehof, não nessas cohorts.

O substrato do eixo neurossensorial está no relatório de dor e sensação do DEWS II (Belmonte e colaboradores, 2017). Nociceptores polimodais e mecânicos sensibilizados, somados a termorreceptores ao frio anormais, produzem a queixa de ressecamento e dor. Lesão prolongada altera canais e receptores e pode gerar dor neuropática referida à superfície. A avaliação que o relatório aponta (questionários, estesiometria, microscopia confocal in vivo) descreve método. A confocal não é rotina do consultório médio e não será aprofundada aqui. O que cabe é o reconhecimento de que o sintoma pode nascer no nervo, não só no filme.

Galor e colaboradores (2018) traduzem isso em clínica. Doença do olho seco e dor neuropática compartilham epidemiologia e apresentação. Features de dor neuropática ocular (fotoalodinia, hipersensibilidade ao vento) marcam persistência e gravidade de sintomas com sinais semelhantes. Sem um ramo neurossensorial explícito, o paciente com dor desproporcional continua recebendo o mesmo escalonamento de lubrificante e anti-inflamatório que o paciente cujo driver é o filme.

Há um contraste de definição que o leitor vai encontrar, sobretudo em literatura asiática, e que não deve ser apresentado como substituto. A Asia Dry Eye Society (Tsubota e colaboradores, 2017) descreveu um paradigma de sintomas mais tempo de ruptura curto (o fenótipo short-TFBUT, frequente em usuários de tela), mesmo com poucos outros sinais. É um fenótipo real. O DEWS III, porém, exige sintoma (OSDI-6) e um signo de homeostase. Pacientes que fecham ADES podem ou não fechar DEWS III. A harmonização não está resolvida. Esta matéria não adota o paradigma ADES como algoritmo. Usa-o como contraste para não apagar o paciente de TBUT curto e muitos sintomas.

Os questionários que mudam decisão nesta lista são três, com funções distintas. O OSDI de Schiffman e colaboradores (2000) tem doze itens e três subescalas (função visual, sintomas, gatilhos ambientais) e foi validado para gravidade. É instrumento de caracterização, não só de screening. O DEQ-5 de Chalmers, Begley e Caffery (2010) combina frequência e intensidade vespertina de desconforto e ressecamento com frequência de lacrimejamento: escore maior que 6 sugere doença do olho seco; maior que 12 sugere investigar Sjögren (sugere investigar, não diagnostica). O OSDI-6 de Pult e Wolffsohn (2019) reúne os itens 1, 4, 7, 9, 10 e 11 do OSDI, correlaciona-se com o instrumento completo (r ≈ 0,90) e prediz o DEQ-5 (AUC 0,80). É o atalho que o DEWS III adotou para screening. Não é sucessor do OSDI de doze itens. Não cobre as três subescalas. Foi derivado em amostras europeias relativamente jovens (no primeiro estudo, idade média em torno de 34 anos). O cutoff que o consenso usa não está validado no Brasil.

Aplicação

04

Prática

A mudança imediata é de raciocínio, não de escada prescritiva. Se o OSDI-6 ou o DEQ-5 estão altos e a coloração, o tempo de ruptura e a osmolaridade estão baixos (ou o inverso), o primeiro gesto é registrar a discordância como dado. Não como "exame inconsistente". Não como motivo para repetir a lâmpada de fenda até os números coincidirem. A discordância é o achado que abre o mapa, não o que o invalida.

Os questionários entram na decisão, não na ficha por obrigação. O OSDI-6 decide se o paciente entra no algoritmo DEWS III. O DEQ-5, sobretudo acima de 12, puxa a investigação de Sjögren no eixo aquoso. O OSDI completo entra quando o formulário curto não explica o fenótipo: quando a queixa é função visual, ou quando os gatilhos ambientais são o que distingue este paciente daquele. SPEED e SANDE servem como alternativas de acompanhamento, não como instrumentos adotados para mudar o eixo.

O eixo aquoso se reconhece por volume baixo (Schirmer, menisco) e, quando o DEQ-5 está alto, pela pergunta de Sjögren. Sjögren, GVHD e idade predizem menos sintomas que sinais. O paciente oligosintomático com superfície marcada não é "olho seco leve". Não se aprofunda imunologia nesta matéria. Aprofunda-se o reconhecimento de que o volume e o contexto sistêmico podem ser o driver mesmo quando a queixa é discreta.

O eixo evaporativo-DGM se reconhece por tempo de ruptura curto, margem e expressibilidade, e filme lipídico. Nesta matéria, o eixo existe para ser nomeado quando é ele que explica a visita. A biologia da glândula e os procedimentos de margem são de outras matérias.

O eixo inflamatório se reconhece por coloração, hiperosmolaridade e, se o teste já estiver disponível no serviço, MMP-9 como bandeira (não como tema). A inflamação pode ser primária, no bloco de superfície, ou secundária a qualquer outro eixo. Fenótipo inflamatório "puro" é constructo clínico: coloração não é inflamação primária. O que cabe é não tratar toda coloração como se fosse o mesmo mecanismo.

O eixo neurossensorial é o núcleo desta matéria. Dor desproporcional aos sinais. Features de dor neuropática ocular (vento, fotoalodinia). Comorbidades de dor crônica, depressão, PTSD quando o contexto as trouxer. Testes quantitativos sensoriais se o serviço os tiver. A conduta que muda hoje não é uma nova gota: é parar de escalar lubrificante e anti-inflamatório indefinidamente quando o driver é neural, reconhecer o ramo e encaminhar. O que se tem no consultório médio (discordância, features de NOP, comorbidades de dor) é proxy. Não é gold standard. Estesiometria, confocal e QST não são rotina e não devem ser fingidos como se fossem.

A caixa mecânica é reconhecimento, não tratado. Desalinhamento anatômico, exposição, atrito, conjuntivocálase óbvia: reconhecer. Critérios de alerta cabem em uma linha: lagoftalmo, CCh evidente, atrito visível.

Mistos: a maioria dos pacientes terá dois eixos ou mais. Hierarquizar pelo driver da visita (o que explica a discordância de hoje) é o gesto. Completar o checklist de todos os eixos em toda consulta é o que produz polifarmácia. Não há série de cinco casos nesta atualização. Não há fluxograma mestre validado para quinze a vinte minutos. Há um mapa e uma pergunta.

Amanhã, no consultório:

  • Se OSDI-6 ou DEQ-5 altos e coloração, TBUT ou osmolaridade baixos (ou o inverso), registrar a discordância como dado.
  • OSDI-6 para o algoritmo DEWS III. DEQ-5 quando Sjögren ou deficiência aquosa está em jogo. OSDI completo quando o curto não explica função visual ou gatilhos.
  • Aquoso: volume baixo. DEQ-5 > 12 sugere investigar Sjögren. Menos sintomas que sinais se Sjögren, GVHD ou idade.
  • Evaporativo-DGM: TBUT curto, margem, expressibilidade, lipídio. Nomear o eixo. Não esgotar a glândula aqui.
  • Inflamatório: coloração, osmolaridade, MMP-9 só como bandeira se já disponível. Primário ou secundário. "Puro" é constructo.
  • Neurossensorial: dor desproporcional, vento, fotoalodinia, comorbidades de dor. Não escalar filme indefinidamente. Reconhecer e encaminhar o ramo de dor.
  • Mecânico: lagoftalmo, CCh óbvia, atrito. Caixa.
  • Mistos: hierarquizar o driver de hoje, não o checklist completo.

Limitações

05

Limitações

Esta matéria propõe um mapa. Não vende desfecho. Não há ensaio randomizado que teste fenotipagem integrada contra escalada por gravidade de sintomas. Não há algoritmo consultorial validado que hierarquize cinco eixos e mistos em uma visita de quinze a vinte minutos. O DEWS III dá testes e cut-offs. Não dá a ordem dos drivers quando eles convivem.

Não há gold standard de fenótipo neurossensorial no consultório médio. Microscopia confocal, estesiometria e testes quantitativos sensoriais não são rotina. Features de dor neuropática ocular, discordância e comorbidades de dor são o melhor proxy disponível. E é proxy.

O cutoff OSDI-6 ≥ 4 na soma 0–24 não foi validado no Brasil. O instrumento foi derivado em amostras europeias relativamente jovens. O pacote de cut-offs do DEWS III (OSDI-6, NIBUT, osmolaridade, coloração) não foi testado prospectivamente como conjunto na clínica brasileira.

A harmonização entre ADES e DEWS III não está resolvida. Sintomas mais TBUT curto não são o mesmo critério que sintoma mais um signo de homeostase.

A direção da discordância em mulheres brasileiras (a maioria do consultório) apoia-se em Vehof, serviço terciário holandês, não nas cohorts VA de Ong e Galor, predominantemente masculinas. Nichols 2004 permanece landmark e permanece amostra pequena, pré-osmolaridade e pré-NIBUT de rotina.

Fenótipo inflamatório "puro", sem biomarcador de consultório, é constructo. Coloração e osmolaridade não autorizam essa etiqueta.

O Digest do DEWS III tem corrigendum em 2026. Esta matéria usa só o eixo dor e sensação e a distinção ADDE versus evaporativo, sem recap de DGM, e não afirma ter verificado o texto da correção (o full text não estava disponível no corte).

Um artigo citado em base de consenso (Mejía-Salgado e colaboradores, 2026) não foi confirmado no PubMed até 15 de agosto de 2026 e não é citado.

Fontes

Referências

Referência acadêmica

Como citar este artigo

CRUZ, Philipe Saraiva. Quando sintomas e sinais não batem. SUPERFÍCIE — Revista de Olho Seco e Superfície Ocular, Caratinga/MG, ed. 0, 15 ago. 2026. Disponível em: <https://olhossecos.com.br/superficie/artigos/quando-sintomas-e-sinais-nao-batem>. Acesso em: 10 out. 2026.

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