Análise editorial

01

Por que importa

O consultório ainda escala o paciente que não responde à lágrima como se o filme fosse o único endereço. Irritação, epífora, tempo de ruptura curto na córnea inferior: o reflexo é trocar o lubrificante, acrescentar anti-inflamatório, chamar de “olho seco refratário”. Uma parte desses pacientes tem desalinhamento, atrito ou dinâmica palpebral. A conjuntivocálase é o achado mais comum e o mais ignorado. Mimetiza doença do olho seco. Coexiste com ela. Não é ela.

O work-up filme-cêntrico organiza a ficha. Não fecha o paciente cuja prega invade o menisco, cujo lid wiper está marcado e cujo filme “normal” não explica a queixa. O DEWS III já formalizou o endereço: desalinhamento anatômico no bloco superfície, piscar e fechamento no bloco pálpebra. O eixo mecânico não é opinião editorial. É subclasse.

Três sinais se misturam na lâmpada. LWE marca atrito quando o filme é “normal”. LIPCOF prediz sintoma e não é CCh. CCh é redundância em volume que invade o menisco, com sítio e dinâmica. Distinguir os três é o gesto. Piscar incompleto, floppy eyelid e lagoftalmo noturno são fenocópias de exposição. Mapear. Não abrir neuro-oftalmo. Higiene palpebral não trata CCh. DGM pode coexistir. Não se absorve aqui a biologia da glândula.

Análise editorial

02

Método e recorte

Este artigo é uma revisão narrativa. Não constitui diretriz nacional nem prescrição individual.

As referências foram conferidas no Crossref em 15 de agosto de 2026. Autor e título precisaram bater com o registro persistente antes de entrar na lista. Quatorze de quatorze DOIs resolvidos. Data de corte da busca: 15 de agosto de 2026. Höh (1995) e Hirotani (2003) não têm DOI Crossref e não são citados.

Evidência

03

Evidência

Wolffsohn e colaboradores (2025) já colocam desalinhamento anatômico e dinâmica palpebral no mapa do DEWS III. Não se refaz aqui a bateria de testes de “Cinco testes, cinco perguntas”.

Esta prega explica este sintoma? A definição clássica é de Meller e Tseng (1998). CCh é conjuntiva redundante, tipicamente entre o globo e a pálpebra inferior, frequentemente ignorada como mudança senil. Espectro: agrava olho seco no leve; perturba o outflow no moderado; exposição no grave. Lubrificantes tópicos podem ser tentados e frequentemente falham. Excisão pode ser necessária. Os autores propõem um sistema de gradação e uma fisiopatologia hipotética centrada na dinâmica lacrimal. Marco de classificação. Não prova de que toda prega é doença.

Mimura e colaboradores (2009) aplicaram essa gradação em nasal, médio e temporal, n = 1.416, 1 a 94 anos, prospectivo hospitalar. Prevalência sobe com a idade: 6,8% na primeira década, 90,2% entre 41 e 50 anos, quase universal depois dos 60. Grau médio maior em mulheres. Temporal pior que nasal. Mudança ao olhar para baixo e à pressão digital, e ceratite pontuada, aumentam com a idade e correlacionam com gravidade, sobretudo da conjuntiva média. CCh é etária e assimétrica por sítio. Temporal não é nasal. Série hospitalar japonesa: não é prevalência populacional brasileira. “Quase universal após 60” não autoriza operar todo idoso.

Yokoi e colaboradores (2005) dão o impacto clínico. Cento e sessenta e oito olhos, 131 pacientes, CCh proeminente no menisco inferior, sintoma não controlado por colírio. Cinquenta olhos com DED, 118 sem. Sintoma-chefe: irritação (51,7% sem DED; 80% com DED) e lacrimejamento (31,4% sem DED). Melhora do sintoma-chefe em 88,2% sem DED e 78,0% com DED após cirurgia. No grupo com DED, escores de fluoresceína caíram. Imunohistoquímica em n pequeno: CCh e conjuntiva normal com inflamação desprezível frente a conjuntiva inflamada. CCh causa sintomas e dano de superfície mesmo sem DED clássica. Coexistir com DED não a torna “só DED”. Inflamação da prega não é o driver. Série sem braço controle. A técnica “nova” dos autores não entra aqui; entra o desfecho.

Marmalidou, Kheirkhah e Dana (2018) sintetizam a doença. Pregas redundantes, tipicamente conjuntiva bulbar inferior bilateral. Causa comum de irritação no idoso, frequentemente ignorada. Fator de risco principal: envelhecimento. Sintomas via instabilidade do filme e/ou clearance tardio. Patogênese em aberto: conjuntiva envelhecida, filme instável, atrito mecânico, inflamação de superfície, clearance tardio. Histologia contraditória: alguns estudos com estrutura microscópica normal. Tratamento médico: lubrificação e anti-inflamatório. Refratário: cirurgia. CCh é entidade própria que se associa a DED. Não é sinônimo.

Há atrito quando o filme é “normal”? LWE é o marcador. Korb e colaboradores (2005) compararam 50 sintomáticos e 50 assintomáticos, todos com FBUT ≥ 10 s, Schirmer ≥ 10 mm, sem coloração corneana. Lid wiper: a conjuntiva marginal da pálpebra superior que varre a superfície no piscar. LWE, fluoresceína mais rosa bengala, grau 0–3, em 76% dos sintomáticos (44% grau 1, 22% grau 2, 10% grau 3) versus 12% dos assintomáticos (8% grau 1, 4% grau 2, nenhum grau 3). LWE explica sintomas com work-up filme-cêntrico “normal”. Não é ouro: nem todos os estudos replicam a associação com a mesma força. Não se reusa aqui o artigo de 2010, já citado em “Cinco testes, cinco perguntas” como sítio de coloração de margem. A pergunta desta matéria é atrito.

LIPCOF prediz sintoma e não diagnostica CCh. Pult e Bandlitz (2018; n = 148, três centros, idade média 37 anos) viram LIPCOF temporal, nasal e Soma correlacionar com OSDI e NIKBUT. AUC da Soma: 0,771 para sintomático (OSDI ≥ 15) e 0,798 para o compósito OSDI ≥ 15 mais NIKBUT ≤ 9 s. Sinal útil de atrito e sicca. Não é diagnóstico de CCh. A escala original dos anos 1990 não tem DOI resolvível e não entra como fonte.

LIPCOF e CCh são entidades distintas. Ballesteros-Sánchez e colaboradores (2024), em revisão de 26 estudos (2009–2023), pedem lâmpada de fenda para distinguir. Ambos associam-se a sintomas de DED em usuários e não-usuários de lente. Lubrificante reduz LIPCOF em não-usuários. Cirurgia é o que elimina a CCh quando o tratamento clínico falha. Não há critério operacional único validado: altura, número de pregas, invasão do menisco, OCT. A distinção é clínica.

O modelo que liga os sinais à força, não à glândula, é o de Pult e colaboradores (2015). No sujeito saudável, o coeficiente de atrito da superfície se comporta como brushes poliméricos hidrofílicos em baixa velocidade; em alta velocidade, um filme fluido protege. No olho seco, falha o regime de filme completo: cisalhamento, deformação, wear do par pálpebra–globo. Liga LWE e LIPCOF a mecânica. Modelo. Não ensaio. Coeficiente de atrito de pálpebra humana não se mede no consultório.

O piscar é completo? McMonnies (2007) associa piscar incompleto a ceratopatia de exposição, inclusive pós-LASIK, e a LWE. Na córnea ou lente inferior, um piscar incompleto aproximadamente dobra o intervalo interpiscar e o tempo de evaporação. Piora em computador e leitura, quando a taxa de piscar cai. Distribuição inadequada de aquoso, muco e lipídio. Osmolaridade sobe com evaporação. O autor propõe exercício de eficiência de piscar mais lubrificante. Review, não RCT. Suficiente para mapear o fenótipo de tela e exposição. Não abre VII par, EMG nem capítulo de paralisia.

Floppy eyelid é fenocópia. Salinas e colaboradores (2020) descrevem hiperlaxidade palpebral com conjuntivite papilar reativa, eversão fácil, irritação crônica; associações com ceratocone e apneia obstrutiva. Conservador: lubrificação agressiva, proteção noturna, não dormir sobre o olho afetado. CPAP prolongado pode melhorar sinais se houver AOS. Isso é associação de review, não indicação desta matéria para diagnosticar apneia nem prescrever CPAP como terapia de olho seco. Cirurgia de encurtamento se refratário. O leitor deve everter a pálpebra e perguntar sono. Sem atlas de blefaroplastia.

A coexistência com DGM está em Vu e colaboradores (2018; n = 449, DECS-J, 86% mulheres). FRD, friction-related disease, é SLK + CCh + LWE. DGM encurtou TBUT (1,97 versus 2,94 s) em ADDE e em short-TBUT. ADDE com FRD: TBUT 2,08 versus 2,92 s sem FRD. Atrito e DGM coexistem e ambos encurtam TBUT. Não é “ou DGM ou mecânico”. Transversal, maioria mulher japonesa. Associação, não causalidade. Sem biologia da glândula.

O lubrificante adianta? A cirurgia, quando? O algoritmo de manejo é o de Marmalidou e colaboradores (2019). CCh assintomática: observar. Sintomática: primeiro lubrificação e, se houver outro eixo inflamatório, anti-inflamatório. Refratário: cirurgia. As vias mais usadas: cauterização e excisão com ou sem membrana amniótica. Há ainda fixação escleral, ligadura, laser, radiofrequência. Taxas variáveis, sem RCT comparativo grande com desfecho funcional padronizado. Uma linha cada. Sem atlas. Sem nome de técnica proprietária.

O lastro do lubrificante viscoso é fraco e precisa ser dito assim. Kiss e Németh (2015; n = 20, aberto, autocontrolado) usaram lágrima com glicerol isotônico e hialuronato 0,015%. LIPCOF médio 2,9 para 1,4 em três meses. TFBUT ganhou cerca de 1 segundo. Oxford 1,3–1,4 para 0,2–0,3. OSDI 36 para 16. Lubrificante viscoso pode reduzir grau de prega e sintoma o bastante para adiar cirurgia. Sem máscara, sem controle, n pequeno, produto nomeado no título do paper. A marca não entra aqui. O desfecho é LIPCOF, não CCh volumétrica de Meller. Extrapolar “lágrima desincha CCh grau 3” é overclaim.

Aplicação

04

Prática

Se o filme não explica a queixa, ou se a instabilidade é só inferior, olhar pálpebra (piscar, fechamento) e superfície (desalinhamento). A bateria de testes está em “Cinco testes, cinco perguntas”; os cinco eixos, em “Quando sintomas e sinais não batem”.

CCh: ver e graduar, não só “tem prega”. Três sítios: nasal, médio, temporal. Altura versus menisco. Mudança ao olhar para baixo e à pressão digital. Temporal costuma ser pior. Prega no menisco mais epífora: pensar obstáculo ao outflow, não lacrimejamento emocional. Prega etária é comum. A pergunta é se esta prega, neste sítio, com esta dinâmica, explica este sintoma.

CCh e DED podem coexistir. Irritação ou epífora com prega óbvia e filme já tratado é CCh sintomática, não “DED refratária”. Inflamação da prega é desprezível no lastro que se tem. Não escalar imunomodulador por causa da CCh. Anti-inflamatório só se outro eixo pedir.

LWE. Fluoresceína mais lisamina ou rosa bengala na margem posterior da pálpebra superior, e inferior se quiser. Grau ≥ 2 com filme “normal” aponta atrito. Não relatar só a córnea. Não vender LWE como ouro.

LIPCOF não é CCh. LIPCOF: prega lid-paralela temporal e nasal, escala 0–3, preditor de sintoma. CCh: redundância em volume que invade o menisco, com sítio e dinâmica. Distinguir na lâmpada. Não tratar LIPCOF com higiene de margem nesta matéria. Higiene palpebral trata margem. Não trata redundância conjuntival.

Snap-back e laxidade. Puxar a pálpebra inferior e ver o retorno. Manobra de consultório. Sem paper âncora com DOI nesta lista: descrever como exame, não como escala validada, sem cutoff inventado. Laxidade extrema mais eversão fácil: pensar FES. Perguntar sono. Everter.

Piscar. Observar completeza, não só taxa. Tela e leitura: intervalo inferior dobrado se o piscar for incompleto. Lagoftalmo noturno e FES: fenocópia de exposição. Uma pergunta de sono e um relógio de piscar. Sem EMG. Sem capítulo de VII par.

Tratamento clínico primeiro. Lubrificante viscoso: glicerol e hialuronato como classe, não marca. Pode reduzir grau de prega e sintoma o bastante para adiar cirurgia. A evidência é n = 20, aberta, e mede LIPCOF. Higiene palpebral não é o tratamento da CCh. Anti-inflamatório só se houver outro eixo.

Cirurgia quando o sintoma e a topografia batem e o tratamento clínico falhou. Prega no menisco, exposição, epífora mecânica, depois de lubrificante viscoso. Cauterização no volume menor. Ressecção com ou sem amniótica no volume maior. Uma linha cada. Sem atlas. Sem técnica proprietária. Sem operar imagem.

Se houver DGM e doença de atrito, o TBUT fica mais curto. Tratar os dois eixos. Não absorver a matéria molecular da glândula.

Limitações

05

Limitações

Não há ensaio que teste “fenótipo mecânico versus escalada por filme” com desfecho de paciente. Não há RCT grande de cauterização versus ressecção versus amniótica versus lubrificante viscoso com desfecho funcional padronizado. Não há prevalência brasileira de CCh, LWE ou LIPCOF até 15 de agosto de 2026. Mimura é hospitalar japonês. Pult 2018 é europeu e relativamente jovem.

Yokoi 2005 é série cirúrgica sem controle. A imunohistoquímica tem n de um dígito. Meller e Tseng 1998 é review mais hipótese, não validação prospectiva da escala. A escala original de LIPCOF dos anos 1990 e o paper japonês de 2003 sobre junção mucocutânea existem no PubMed e não são citáveis: DOI Crossref irresolvível. Snap-back não tem paper âncora com DOI nesta lista.

Kiss 2015: n = 20, sem máscara, sem controle, produto nomeado; mede LIPCOF, não CCh volumétrica. Marmalidou 2018 e 2019 são reviews. Pult 2015 é modelo tribológico. McMonnies 2007 é review. Exercício de piscar não tem RCT de desfecho nesta lista. Vu 2018 é transversal. Salinas 2020 é review de FES: a matéria não diagnostica AOS nem indica CPAP como terapia de olho seco.

A distinção LIPCOF versus CCh é pedida e não tem critério operacional único validado. Atribuição causal CCh → sintoma continua clínica: topografia, dinâmica, falha do filme. Prega etária é comum. Operar por imagem é overtreatment. O corpo completo do DEWS III Diagnostic não está em PMC: a subclassificação desta matéria limita-se ao que o abstract deposita. LWE não é ouro em toda a literatura.

Fontes

Referências

Referência acadêmica

Como citar este artigo

CRUZ, Philipe Saraiva. A prega, o atrito e o piscar. SUPERFÍCIE — Revista de Olho Seco e Superfície Ocular, Caratinga/MG, ed. 0, 15 ago. 2026. Disponível em: <https://olhossecos.com.br/superficie/artigos/a-prega-o-atrito-e-o-piscar>. Acesso em: 10 out. 2026.

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